Manuel Conde — Blog
← Todos os artigos

· 6 min de leitura

O que fica depois da perda

Sobre a diferença entre ser ferido e ser corrompido, e sobre o que resta de um homem quando perde uma obra que construiu.

Há coisas que começam por ser trabalho e, a certa altura, deixam de o ser. Não sei dizer quando acontece. Talvez numa noite em que ficamos a resolver um problema que ninguém nos pediu para resolver, ou na primeira vez que alguém depende do que fizemos para pagar a renda. A partir daí, aquilo que construímos passa a ter dentro de si outras coisas: pessoas, promessas, um certo modo de nos vermos ao espelho. Eu construí uma obra assim. Levou anos. Não era perfeita, mas era minha no sentido mais exigente da palavra: respondia por ela.

Quando chegou o momento de a entregar a uma estrutura maior, não o fiz por ingenuidade. Fi-lo pelas razões que qualquer pessoa sensata teria. Havia ali escala, continuidade, uma promessa de proteção para quem trabalhava comigo e um futuro que eu sozinho não conseguia garantir. Lembro-me de assinar com a sensação de quem deixa um filho numa escola melhor do que aquela que lhe podia dar. Não pensei, nesse dia, numa coisa que hoje me parece evidente: quem entrega uma obra entrega também o poder de contar a sua história. A última palavra sobre o que eu tinha feito deixava de ser minha.

Durante algum tempo, isso não pesou. Falava-se em nós, e eu acreditava nessa palavra. Mas havia outra coisa, dita mais de uma vez e quase sempre com simpatia: que eu era diferente. Diferente queria dizer que não tinha feito o caminho que os outros tinham feito, que não tinha crescido ali dentro, que tinha chegado com uma obra e não com uma vida inteira naquela casa. Na altura ouvi-o como um elogio. Hoje percebo que era uma descrição. Não houve um dia em que a temperatura mudou. Houve uma série de pequenos sinais que só mais tarde soube ler: uma reunião para a qual já não era chamado, uma pergunta que passou a ter resposta por escrito, o plural que usávamos a desaparecer das mensagens. Ninguém me disse que eu não pertencia. Talvez nunca tenha sido preciso. Eu é que demorei a perceber que estava a ser tratado, desde o início, com a cortesia que se reserva aos convidados.

Há relações que acabam por dentro muito antes de acabarem por fora. Outras nunca chegam a começar por dentro, e só damos por isso quando acabam. Durante meses, por fora, tudo continuou igual. Por dentro, eu andava pelos corredores como quem visita uma casa onde julgou viver.

Quando a rutura se tornou visível, já não houve surpresa. Houve apenas a dor de ver confirmado o que se pressentia. E veio depois a parte que eu não esperava, e que talvez tenha sido a mais difícil: a redução. Anos de trabalho, de escolhas difíceis, de pessoas que confiaram em mim, passaram a caber em meia dúzia de frases. Uma versão. Uma interpretação. Acessos que se fecham, palavras escolhidas por quem não estava lá quando as coisas foram feitas. Compreendo que uma estrutura pesada precise de versões leves para serem administráveis; por lá, não se sabe governar de outra forma. Mas o que se tira a uma história para a aliviar é, quase sempre, o que ela tinha de mais verdadeiro, e há uma solidão particular em ver a nossa vida resumida por outros numa linguagem que não reconhecemos.

Durante algum tempo, quis corrigir essa versão. Quis explicar, acrescentar, repor. Depois percebi que estava a pedir a quem me reduzira que me devolvesse a medida certa. Não ia acontecer, e esperar por isso era continuar a entregar-lhe a minha história.

Foi aí que a pergunta mudou. Deixou de ser o que me tinham feito e passou a ser outra, mais incómoda: que homem ia eu ser depois disto.

Não vou fingir que a resposta foi limpa. Houve raiva, e não pouca. Houve vergonha, aquela que sentimos sem saber bem de quê, como se tivéssemos sido apanhados a acreditar demasiado. Houve silêncio, porque há coisas que não se explicam bem a quem não as viveu e que se explicam mal a quem as viveu. Houve medo, sobretudo de manhã. Houve a humilhação discreta de voltar a apresentar-me a pessoas que antes me conheciam pelo que eu tinha feito.

Mas houve uma linha que não cruzei, e é dela que quero falar. Em nenhum momento me pareceu aceitável tornar-me aquilo de que me queixava. Teria sido fácil, e houve dias em que me pareceu justo: responder com a mesma frieza, com as mesmas meias-verdades, com a mesma arte de reduzir o outro a uma versão conveniente. Não o fiz, e não por virtude especial. Não o fiz porque percebi que o carácter era a única coisa que eu não tinha entregado. Tudo o resto tinha ido com a obra: o chão, a pertença, o futuro que eu imaginava, uma versão antiga de mim. O carácter tinha ficado comigo. Entregá-lo agora, por raiva, seria a única perda inteiramente minha.

Podemos ser feridos sem sermos corrompidos. Demorei a perceber que a diferença entre uma coisa e outra não depende do que nos fazem. Depende do que fazemos a seguir e, sobretudo, do que nos recusamos a fazer.

Desconfio da palavra resiliência quando vem embrulhada em entusiasmo. A que conheci não teve nada de luminoso. Foi uma decisão lenta, tomada muitas vezes, quase sempre sem testemunhas. Levantar-me num dia em que não havia razão evidente para o fazer. Responder com educação a uma mensagem que não a merecia. Voltar a trabalhar em coisas pequenas, sem saber se alguma delas cresceria. Não deixar que a perda decidisse o tom de tudo o resto, e também não fingir que ela não estava lá.

Recomeçar não é voltar a ser quem éramos. Essa pessoa ficou do outro lado, e não acho que deva voltar. Recomeçar é continuar a ser quem somos depois de termos sido quebrados, com as marcas à vista e sem pedir desculpa por elas.

O homem que saiu deste processo é menos ingénuo. Confia mais devagar e pede mais a quem lhe pede confiança. Pergunta mais antes de assinar e ouve as promessas com atenção ao que não dizem. Sabe agora que as estruturas não têm memória afetiva, e que é imprudente entregar-lhes, sem reserva, aquilo de que precisamos para viver.

Mas não é um homem cínico. Continua a achar que vale a pena construir coisas com outras pessoas, e que a maior parte delas merece a confiança que lhe damos. Só deixou de a dar por inteiro no primeiro dia.

Também não é um homem destruído, nem menor. Perdeu uma obra, e isso não se apaga. Mas a obra não era a medida inteira de quem a fez.

Hoje volto a construir, porque é isso que faço com a vida que tenho. Com ferramentas que há poucos anos não existiam e que permitem a poucos fazer o que antes exigia uma estrutura pesada, e com a mesma teimosia de antes. A diferença é que, desta vez, sei o que não se entrega.

É isso que fica depois da perda: o carácter, que só se perde se o entregarmos, e a vontade de voltar a construir.

Temas